• Quem sou eu

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    Sou personagem do livro "Entre o Amor e a Amizade" de Bianca Briones. Mais informações: http://redomadecristal.com.br/livros/ OBS: A imagem é da atriz Emily Vancamp, pensava muito nela enquanto escrevia sobre a Viviane.

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    “O tempo é capaz de desfocar as nossas dores e nos distrair com a vida que segue, mas a dor nunca some por completo. Nós a colocamos num arquivo do coração e evitamos mexer nela.”

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    Redoma de Cristal

Vivendo depois de você...

***Sem Spoilers do Livro

Meu aniversário foi semana passada e se não bastasse tudo o que já fez por mim, Rafael me deu o livro Morte e Vida de Charlie St. Cloud. É claro que ele leu primeiro para saber se eu não morreria de chorar lendo (isso ele só me contou depois). Parece que ele ainda pensa que sou de açúcar.

O livro trata da morte prematura do irmão caçula de Charlie St. Cloud e como ele lidou com isso. Ele tinha uma vantagem sobre as outras pessoas que perdem seus entes queridos: podia ver o espírito de Sam. Isso continua por treze anos até que Tess aparece e, de uma forma maravilhosa, traz Charlie de volta à vida.

Não é fácil ser quem sobrevive. Isso tira um pedaço de você a cada dia e traz muitas questões à sua mente. Conforme lia, me identificava tanto com Charlie que às vezes me sentia sufocando. Uma vez, sonhei com meu pai e parecia tão real. Imagina poder ver seu espírito como no livro? Acho que ficaria presa a ele da mesma forma que Charlie.

Tess também conhecia a dor da perda porque o pai dela havia falecido e foi assim que eles se aproximaram, porque Charlie era zelador do cemitério.

Entendo o motivo do Rafa ter se identificado com o livro e se lembrado de mim. Foi assim conosco. Em nossas dores, nos salvamos.

Lembro-me de um dia, logo no começo de nossa amizade, uns quinze dias após a morte do meu pai, em que ele disse: "A morte é impiedosa, não é apenas quem se vai que morre, quem fica morre também, mas tem a infelicidade de ter que seguir em frente. E ninguém nunca está preparado. Por mais que pense que está."  Ele conhece bem essa dor por todas as perdas que já sofreu.

Naquele dia passei horas refletindo sobre como seria a vida sem meu pai e na fatalidade disso não ser minha escolha. Por isso me identifiquei tanto com Charlie e senti como se a dor fosse minha, na verdade, acho que era. Confundir minha dor com a dele foi inevitável.

Já sofri algumas perdas em minha vida, mas a morte do meu pai foi, de longe, a mais dolorosa porque sabia que, diferente de um emprego, um carro ou um amor, ele não iria mais voltar. Não era só me levantar e recomeçar, não importava o que eu fizesse, nunca mais o veria.

Sei que muitas pessoas colocam sua fé que reencontrarão seus entes queridos após a morte, ainda não sei em que acreditar. A ironia é que meu pai sempre me ensinou a acreditar nisso, mas o perder me tirou completamente o foco. Procuro pensar que ele ainda está aqui ao meu redor, me guiando como um anjo da guarda. Às vezes, nem me guiando, mas estando ao meu lado quando tudo dá errado.

Procuro pensar no que meu pai deixou para mim e trocaria tudo pela vida dele. Aí me lembro que ele me deixou algo que não poderia trocar por nada, ele deixou o meu irmão que, de uma forma maluca, é um dos maiores presentes que já tive. Quem o conhece sabe que o Rodrigo é o Sol em pessoa. É como se a luz dele fosse suficiente para aquecer e iluminar o mundo. Ele me salvou tanto quanto o Rafael. É... Começo a pensar que meu pai está mesmo ao lado de Deus e que ele envia anjos para estarem comigo.  Acho que não estou tão descrente quanto pensava.

Não é fácil viver sem ele aqui. Por um tempo, fingi que vivia porque era o que as pessoas esperavam de mim. Mas a verdade é que mal podia respirar. Ainda assim, tive sorte porque o Rafael surgiu em meu caminho e com seu jeitinho insistente não desistiu até que me tirasse da tristeza e aceitasse o que se passou.

Ainda sinto a falta do meu pai, ainda voltaria no tempo para conversar com ele, ainda desejo que ele não tivesse morrido, mas ele se foi, independente da minha vontade e até mesmo da dele. Ele se foi e eu ainda estou aqui. Sobrevivendo e aprendendo a ser feliz sem ele.

Dói escrever isso, parece que, só por escrever que estou sendo feliz, estou sendo egoísta. Comecei a ler emails antigos do Rafa e num deles encontrei algo que me deu forças para escrever esse texto:

"Quantas vezes preciso dizer que é por amar tanto você que seu pai quer que você viva?

Precisa entender que estar viva não é uma afronta a ele. Não foi culpa sua e mesmo que tivesse sido, você ficou e ele se foi. É uma droga, eu sei, mas morrer em vida é castigá-lo por algo que ele não teve culpa. Ele não escolheu a morte dele e ficaria indignado se soubesse que você está decretando a sua.  

Você viver, ou melhor, passar os dias achando que morreu é desperdiçar a vida que seu pai queria estar vivendo e foi lhe negada.

Sei exatamente o quanto dói porque já estive em seu lugar, quando perdi, quis morrer tanto quanto você. Nós sabemos onde isso terminou. Você não quer aquilo para você e eu não permitiria que chegasse a esse ponto.

A questão é que seu pai queria estar vivo, então, em homenagem a ele, peço a você que viva. Se ainda está tão ferida que não consegue viver por você, viva por ele e antes que perceba retomará o rumo da vida que por direito é sua.

Não há uma fórmula exata. Pessoas que nunca passaram por isso sugerem as mais loucas ideias, mas eles não têm noção de que às vezes mais atrapalham do que ajudam. Eu passei por isso e só digo a você que viva e deixa o tempo se encarregar do resto. Sabemos bem como ele age.

Eu estarei aqui em todo o processo."

Charlie se sente assim durante muito tempo, como se ele fosse o culpado por ter sobrevivido. Passei o livro vendo nossas semelhanças e entendi o recado, Rafa.

Vou viver, afinal, como disse o Florio no livro, se estou viva é por um motivo e não posso desperdiçar o dom que recebi.

Obrigada pelo presente.

Recado da Bianca:

Como Viviane escreve muitos textos, nem todos estarão em ordem cronológica, por isso sempre colocarei aqui o tempo do texto para facilitar a vida de quem leu o livro. Esse foi escrito no segundo aniversário dela após a morte do pai. Ela completou 23 anos e Rafael lhe presenteou com o livro.

Também marcarei no início da postagem se há ou não spoilers que estragariam a leitura do livro. Nesse caso, não há.

Espero que gostem de curtir mais um pouquinho de Entre o Amor e a Amizade.

3 comentários:

Ellen Cristina disse...

*-* Não sabia que a Vivi tinha um blog agora =( ainda bem que "descobri" ele \o/

Adorei o texto sobre Morte e Vida de Charlie St. Cloud *-*

Rafa deu o livro pra ela, que linds *-*

Beijos

Cacá SS disse...

Como é bom voltar a acompanhar os pensamentos (e sentimentos) da Vivi...

Lívia Carolina disse...

Este post me deixou simplesmente sem palavras !!!!